
As seguintes páginas de diário surgiram no âmbito da exploração da obra Sexta-Feira ou Vida Selvagem, de Michel Tournier e refletem a temática da adaptação ao outro e à cultura do outro.
Deitado na cama de palha, Sexta-Feira considera a nova realidade que agora enfrenta.
Sexta-feira, 8 de maio
Hoje não sei bem o que aconteceu, ainda estou para perceber o que é que esta vida trará de novo para mim. Aconteceu tudo tão de repente, só me lembro de fugir e de ouvir um barulho que parecia vir na minha direção, mas que acabou por me salvar. É estranho que um barulho nos salve, nunca me tinha acontecido, no entanto, já diz o ditado que existe sempre uma primeira vez para tudo. Só agora me apercebo que o futuro não é certo, basta até um barulho para tudo mudar. Num momento sou um índio livre, tapado apenas por uma tanga de couro e num período de segundos amaldiçoa-se uma pessoa, esta corre pela vida, ouve-se um barulho e, no momento seguinte, sou escravo de um homem branco, que tem medo de perder o controlo da sua vida. Será por isso que me obrigou a trocar a minha liberdade por uma fidelidade vestida com calções de marinheiro? Já agora, coisa estranha, nunca havia sequer imaginado que me veria obrigado a jurar escravidão e prometer que usaria tal peça de vestuário, por causa de um barulho, sim, porque tudo se resumiu a isso, um barulho que ao perfurar os meus ex-compatriotas, me salvou de uma morte lenta e quente. Terei que suportar os seus hábitos demasiado … certinhos! Se a vida existe tem que ser vivida, não desperdiçada a regar arroz! Pode ser que ele venha a aprender algo comigo também.
Não consigo deixar de pensar que talvez fosse o destino, pelo menos foi original! Cada vez que penso, um súbito gozo pela situação desperta em mim uma risada incontrolável. Quem diria que o meu destino ficaria a dever-se a um barulho!?! Inacreditável! Nem mesmo nos meus mais remotos sonhos me imaginaria numa nova vida devido a um barulho ensanguentado e feroz! Parece que devido a isso me vou limitar a uma vida de “Sexta-feira” .
Passados alguns dias Sexta-Feira reflete novamente.
Quarta-feira, 13 de maio
Aprendi muitas coisas novas, porém o meu espírito selvagem continua preservado. Uma das coisas que aprendi de Robinson é que não é nada descontraído. Tem rotinas para tudo! É tão regular que se torna extenuante. Já aprendi algumas palavras na língua dele, mas Robinson recusa-se a tentar aprender o meu idioma. Na verdade, só me faz um favor, menos trabalho tenho, já que quase sou obrigado a aprender o dele. A vida com Robinson não tem sido má, mas não me consigo habituar àqueles fatos apaparicados, que são tão importantes para ele.
… Depois da Explosão …
Finalmente, depois de algum tempo, recupero algum poder na minha própria vida e espero que o meu companheiro aprenda mais comigo do que eu com ele …
Sexta-Feira
Carolina Santos Martins 8ºE
Uf! Mais um dia cansativo e de trabalho esforçado. Ainda o Sol não se tinha levantado, já estava a fazer a primeira tarefa diurna, ou seja, verificar como estão os campos e retirar dos mesmos os seres vivos que se alimentam do que nós (embora seja eu que trabalhe) produzimos. Após esta dura missão, dedico-me à contagem do gado existente na ilha, que cada vez existe em maior número. Ao almoço preparei o empadão de que o chefe tanto gosta, no entanto, eu prefiro bagas. A tarde foi passada a fazer as seguintes atividades: rega do trigo e do milho, recolha do arroz e contagem dos animais aquáticos em Speranza. A última atividade foi preparar mais um pesado jantar, ao qual na terra do chefe chamam lombo.
Sinceramente, estou cada vez mais aborrecido com a cultura do patrão, visto que detesto as roupas que visto (quem me dera voltar a usar a tanga de couro), já não como os deliciosos, naturais e frescos alimentos dados pela Natureza. Agora o meu único prazer é fumar cachimbo às escondidas dele, pela razão de parecer perigoso. Ainda assim tenho de aguentar, pois ele salvou-me a vida.
Não entendo a razão pela qual o chefe se dedica esta vida aborrecida e desalegre, porquê tantas obrigações, porquê tantos trabalhos, porquê estas roupas? Porquê, porquê, porquê? Estamos numa ilha tão bonita e com tantos recursos, podíamos ter tanta diversão e formar uma bela amizade. Espero que um dia a mentalidade dele mude, pela simples razão de que esta vida nos entristece a ambos.
Bem, vou-me deitar-me, pois amanhã será mais um dia trabalhoso. A minha única solução é esperar que Robinson mude.
Obrigado por me ouvires e até amanhã, meu fiel ouvinte.
Sexta-Feira
João Lima, 8ºE
Querido diário,
Olá outra vez! Estou, neste momento, no meu abrigo, o Robinson deu-me folga, pois está a chover torrencialmente e um frio que me arrepela os ossos. Tem sido muito difícil suportá-lo nestes últimos dias, está de mau humor. Eu não compreendo a cultura de Robinson, mas estou em dívida para com ele, por isso… Contudo, tenho feito tudo aquilo que me pediu: ordenhar as cabras, cultivar cereais, construir currais, fazer instrumentos de pesca, construir casas, fazer refeições, uhh, tanta coisa, porém, tem estado chateado por eu ter colocado as roupas todas finórias e requintadas nos catos, qual é o problema? Ele é rude para comigo quando eu brinco, lá na tribo não havia nada de mal com isso. Parece que ele não gosta de mim, mas eu vou-me esforçar para que ele não pense nada de mal. Robinson é muito, muito… muito objetivo e rígido, parece um sentinela, a sua postura é tão direita como a de um bacalhau a secar. No entanto, é um ótimo companheiro, pois ajuda-me quando é preciso e ensinou-me a ser um bom cidadão, porque sem ele não estava aqui a escrever!
Temos imensos planos de construção, porque têm ocorrido imensas tempestades por aqui, por isso, deve-se estar a aproximar o inverno.
Bem, supostamente Robinson está a chegar, tenho de ir!
Sexta-Feira
Leonor Ferreira, 8ºE